Quem se indignou com a defesa involuntária da jornalista Maria Beltrão do "cidadão portando fuzil na favela" não acompanhou o que aconteceu no Brasil nos últimos 30 anos. Pra entender o fenômeno, vou me valer de alguns formuladores de opinião da esquerda, gente considerada culta e instruída no meio progressista.
Leonardo Sakamoto, que é doutor em Ciência Política pela USP e professor de jornalismo, afirmou em coluna publicada em seu blog em junho de 2012 que "ostentação em um país desigual como o nosso deveria ser considerado crime pela comissão de juristas que está reformando o Código Penal. Eles não estão propondo que bulling (sic) seja crime? Ostentação é mais do que um bulling entre classes sociais. É agressão, um tapa na cara".
Cynara Menezes, que é jornalista e por muitos anos foi colunista da Carta Capital, a revista do amigo-irmão do Lula Mino Carta, disse, na mesma linha: "acho simples evitar arrastões. Se você tem medo de arrastão, não vá à praia. Se for, não leve nada, só o necessário, ou vai pagar de TROUXA".
Já Márcia Tiburi, que é Ph.D em Filosofia, professora do Mackenzie e autora de diversos best sellers entre o pessoal da esquerda, além de filiada ao PT, cravou, em entrevista ao programa Espaço Público em dezembro de 2015, que existia uma "lógica no assalto". As palavras dela:
“É também complicado você dizer eu sou a favor, eu sou contra [o assalto]. Se eu disser que eu sou a favor… Por exemplo, eu sou a favor do assalto. Não… eu penso assim: tem uma lógica no assalto, uma lógica no assalto. Eu não tenho uma coisa que eu preciso, eu fui contaminado pelo capitalismo… Começa a pensar do ponto de vista da inversão. Eu não vou falar em termos do que que eu sou a favor porque assim.. é… tem muitas coisas que são muito absurdas.. Se você vai olhar a lógica interna do processo (inaudível) sabe que isso seria justo, dentro de um contexto tão injusto.”
E em artigo para a Revista Cult de junho de 2018, ela aprofunda a "lógica", chamando o roubo de forma de "aquisição de propriedade":
"Mas a reflexão que devemos operar também envolve entender uma economia política que produz desigualdade, acumulação por exploração do trabalho alheio, bem como a apropriação indébita das riquezas imateriais, materiais e naturais que deveriam ser do “comum” em uma sociedade."
Para a esquerda, acumular capital é crime. Logo, o sujeito que assalta simplesmente redistribui renda por ação direta. O roubador é um ativista anticapitalista que age em legítima defesa contra o sistema. É um soldado na guerra por um mundo melhor e mais justo, e suas "vítimas", na melhor das hipóteses, são meramente danos colaterais. Ele, na verdade, faz um bem à sociedade, e, em assim sendo, admitir a possibilidade de que possa ser morto (ou mesmo encarcerado) por isso é um acinte à mentalidade progressista.
Maria Beltrão não é militante de esquerda, e eu acredito que ela sequer se qualificaria como progressista. Mas ela se criou no mesmo líquido amniótico que pariu a pós modernidade, e que subverteu, no mais das vezes inconscientemente, a maneira de ver o mundo de todos nós aqui. Ela própria deve estar chocada com a repercussão de sua fala, já que pra ela é natural desresponsabilizar os indivíduos e culpabilizar entes imateriais que ninguém nunca viu, que não tem endereço nem CPF, como "a sociedade", "o mercado", "a classe média", que são os fatores que corrompem o ser humano bondoso, que é "obrigado" a delinquir pela maldade do mundo. Ela simplesmente É INCAPAZ de deixar de ver o traficante e o assaltante com simpatia e a polícia com ojeriza, embora, em virtude de seus próprios méritos e competência (o que contradiz, empiricamente, a narrativa de exploração capitalista), ela seja um alvo dos primeiros e dependa da proteção diária dos segundos.
Estamos, quase todos, contaminados pela Síndrome de Estocolmo impingida por 30 ou 40 anos de hegemonia progressista. Quebrar isso vai levar, no mínimo, outro tanto.
Rafael Rosset
31 de outubro às 17:35