03/11/2018

Algumas considerações

Algumas considerações importantes para o dia de hoje:

1. Não importa o que aconteça, a narrativa do petismo permanecerá intocável. Moro não provou sua parcialidade quando aceitou o convite para ser ministro de Estado. Moro virou um objeto partidário no exato instante em que ousou julgar e condenar autoridades do petismo.

Não há nada que ele faça que altere essa perspectiva - esteja na primeira instância ou na Esplanada dos Ministérios. Para o PT, Moro é um recurso da elite para perseguir um líder popular incorruptível e a única condição para provar a sua conversão de antipovo para autoridade democrática seria uma declaração pública de arrependimento por atentar contra os interesses do partido. Nada alterará esta condição - e há uma boa expressão inglesa para ela: wishful thinking 


2. Por muito tempo o país foi guiado em reação às narrativas do petismo. Não há qualquer razão que sustente que este deve ser o parâmetro para abalizar as decisões de um governo democraticamente eleito.

O PT perdeu nas urnas. É o petismo quem deve adaptar-se à agenda do governo - opondo-se a ela ou não - e não o contrário. 


3. A prisão de Lula não foi uma decisão monocrática de um juiz de primeira instância. Lula está preso graças às sentenças de inúmeras autoridades do Judiciário - tanto de segunda instância quanto de instâncias superiores.

Isto não é um detalhe. Qualquer análise sob os fatos do dia que ignore essa informação não será fiel à realidade. 


4. É cedo demais para decretar que Moro na Esplanada dos Ministérios será uma catástrofe para a Lava Jato. O que sabemos nesse momento é que a operação tem amplo apoio popular e que qualquer medida para boicotá-la - ou reformá-la deixando cicatrizes - gerará uma reação violenta de uma parcela significativa do eleitorado.

O Brasil pós-2013 é reativo. Não parece crível nesse momento que qualquer ministro do STF atente contra a operação disposto a encarar estas consequências. Caso o faça, Moro terá maiores instrumentos para enfrentar este cenário em Brasília do que em Curitiba. 


5. A decisão de convocar Moro para o Ministério da Justiça e da Segurança Pública mostra que o presidente eleito tratou o seu cargo (ao menos nessa matéria) com a impessoalidade que tanto exigimos das nossas autoridades.

Você pode discordar ou não da decisão de Moro - em defesa ou em suspeita da Lava Jato. Mas deve reconhecer que quando um presidente escolhe um quadro técnico que não faz parte de seu grupo político para tomar conta de uma pasta tão importante - sem atender aos interesses fisiológicos de partidos aliados - prova desprendimento para a condenação de malfeitos de seu próprio governo.

Moro não é Calero. Uma denúncia sua no Fantástico contra o staff de Bolsonaro pode derrubar o governo. Bolsonaro sabe disso. Quando o presidente eleito aceita dividir protagonismo com alguém com tamanha autoridade popular para enfrentar as suas próprias convicções, admite um desapego com o poder substancialmente maior do que estamos acostumados.
,