25/02/14

Ninguém pode ficar parado

Os quase 650 músculos do corpo humano jamais param de trabalhar. Tudo o que fazemos são eles que fazem. E a ciência ensina como usá-los melhor.


Viver é mesmo uma ginástica. O coração se contorce para bombear o sangue que, por sua vez, corre o corpo inteiro. A respiração estica e encolhe os pulmões. O aparelho digestivo se dobra e desdobra com o alimento.

Tudo na vida animal é movimento músculos que se contraem, músculos que se estendem. Graças a cerca de 650 músculos o homem pode, além de viver, ficar em pé andar, dançar, falar, piscar os olhos, cair na gargalhada, prorromper em lágrimas, expressar no rosto suas emoções, escrever e ler este texto.

Portanto, o desempenho da musculatura é muito mais forte que mera força bruta. Ao ver o movimento dos músculos do corpo, os antigos talvez tivessem a impressão de que existiam ratinhos caminhando sob a pele. Pois em latim musculus é o diminutivo de mus, ou camundongo. Na verdade, o músculo é um feixe com milhões de fibras capazes de se contrair. 

São 78 por cento água, 20 por cento proteína, 1 por cento carboidrato e, ainda, em quantidades mínimas, sais minerais e gordura.

As fibras podem ser milimétricas, como as dos músculos dos dedos, ou ter até 10 centímetros de comprimento, como as dos músculos da coxa; mas são sempre finíssimas, com um diâmetro nunca maior do que 1 décimo de milímetro.

As fibras musculares surgiram com os primeiros seres vivos que tinham de se deslocar em busca de água ou comida ou ainda para se reproduzir portanto, animais pluricelulares, que apareceram na Terra há 570 milhões de anos. É a contração de músculos especiais que faz as lulas e águas-vivas expulsar os jatos de água que as impulsionam. Já com o aparecimento dos vertebrados, a musculatura passou também a cumprir uma tarefa essencial sustentar o esqueleto.

A forma e o tamanho de um músculo variam conforme a sua função. A musculatura humana, que representa 40 por cento do peso do corpo, foi herdada dos outros mamíferos e precisou sofrer adaptações para manter o tronco em pé essa tão envaidecedora peculiaridade humana. As mãos, livres do solo, tiveram de modificar os músculos típicos dos quadrúpedes, a fim de poder fazer movimentos complexos e elaborados.

No fundo, todo músculo faz o mesmíssimo movimento, que é contrair-se. Alguns músculos, porém, não obedecem à vontade de seus donos conscientes. São os músculos chamados lisos ou involuntários, que funcionam sob as ordens do sistema nervoso autônomo do organismo. 

São certos bizarros músculos involuntários, por exemplo, que deixam uma pessoa arrepiada de frio. Com apenas 1 milímetro de comprimento, ficam junto da raiz dos pêlos, que se eriçam quando ocorre a contração. Com os pêlos arrepiados como os de um gato em noite fria, o homem estaria mais protegido do clima. Essa função não faz mais sentido, pois no processo de evolução o homem deixou de ser um bicho peludo.

Mas quase todos os músculos involuntários são fundamentais, como os ciliares do olho. O olho humano pode ser comparado a uma máquina fotográfica que precisa focalizar um objeto de acordo com a distância em que se encontra dele. O dispositivo que usa para isso é uma estreita faixa de fibras musculares atrás da íris o disco colorido do olho. 

Ao se contrair, aumenta a curvatura do cristalino, uma espécie de lente natural. A curvatura acentuada é necessária para se enxergar de perto. Por isso, certas atividades, como a leitura prolongada, podem cansar a vista, ou seja, cansar esses músculos que ficam contraídos por muito tempo. Eis também por que focalizar um ponto distante é um colírio para os olhos: a curvatura precisa diminuir e os músculos se estendem.

Apesar de toda a sua importância, os músculos involuntários são minoria. No corpo humano, predominam os quase 500 músculos voluntários que atendem aos comandos do sistema nervoso central. Como possuem estrias microscópicas, também são chamados estriados. 

Existe ainda um terceiro nome para eles: esqueléticos, porque terminam em forma de tendões, que são como cordas de fibras mais fortes, agarradas a ossos. O músculo cardíaco, o mais importante de todos, é considerado um tipo à parte porque, embora seja estriado, se contrai graças a um sistema nervoso próprio.

Qualquer que seja o músculo, suas fibras já estão formadas a partir da sexta semana de vida intra-uterina. A partir de então, cada fibra pode crescer isoladamente. Mas o número de fibras será sempre igual. 

Um atleta musculoso de 20 anos possui a mesma quantidade de fibras que tinha ao nascer. O que elas fizeram ao longo da vida e à custa de muito exercício foi desenvolver-se. Mesmo entre pessoas diferentes não há grandes diferenças: nos músculos de Maguila e nos equivalentes de Lucélia Santos, o número de fibras é praticamente igual pode até ser que, em dado músculo, a suave Lucélia tenha mais fibra que o temível Maguila.

Músculos parecem gostar de trabalho, pois ficam mais ágeis e fortes à medida que são usados. Até quando se está dormindo, os músculos se mantêm num estado de pequena contração, mais conhecida como tônus muscular. 

Em pacientes de paralisia infantil, por exemplo, o músculo nem sequer sustenta essa ligeira contração danificado, o nervo não consegue transmitir-lhe a ordem. Sem o exercício constante do tônus, o músculo acaba por se atrofiar.

Cada fibra muscular segue a lei do tudo-ou-nada: ou se contrai ao máximo ou se ignora o estímulo nervoso. Apesar disso, ninguém se movimenta aos trancos como uma caricatura de robô. Isso porque, em primeiro lugar, as fibras de um mesmo músculo se excitam em graus diferentes: algumas, mais sensíveis, iniciam a contração 4 milésimos de segundo após um estímulo; outras fibras respondem num período muito maior, caso o cérebro insista na ordem.

Outro fator importante é o número de células nervosas motoras que o cérebro escalou para levar a ordem ao músculo, assim como o número de fibras que cada uma dessas células nervosas, por sua vez, controla.

As mínimas gradações de movimento dos dedos de um músico instrumentista, por exemplo, apenas são possíveis porque seus nervos motores controlam um número limitado de fibras. É claro que em situações muito especiais o cérebro pode perder temporariamente esse incessante controle sobre os movimentos. 

Quando a mão toca uma superfície quente, nervos sensitivos da pele e dos próprios músculos dão o alarme; diante disso, antes mesmo de verificar o que aconteceu a mão encostou numa panela e se queimou, o cérebro ordena uma contração súbita de todas as fibras daquela parte do corpo. O resultado será um movimento espasmódico.

Um músculo não precisa de duas ordens: basta que lhe mandem contrair-se. A extensão ocorre naturalmente quando cessa a ordem de contração. Assim, o popular bíceps músculo da frente do braço se contrai e diminui a distância entre os ossos, usando as articulações do cotovelo: essa é uma ação concêntrica, que qualquer pessoa executa no mero gesto de levar uma xícara aos lábios. 

Já para segurá-la na altura da boca é preciso uma ação isométrica, ou seja, capaz de manter a contração sem causar movimento. O cérebro consegue essa proeza bombardeando o músculo com cerca de 45 estímulos por segundo uma ordem que deve se fundir com outra, sem dar tempo para o músculo se estender. Finalmente, a ação excêntrica é quando se abaixa a xícara. Mais uma vez o cérebro controla o movimento interrompendo gradualmente os estímulos às fibras.

Na realidade, um movimento qualquer nunca é obra de um único músculo. No exemplo de dobrar o braço, ao mesmo tempo em que o bíceps se contrai, um músculo oposto o tríceps se estende. E, quando o braço abaixa, é o tríceps que se contrai, puxando o antebraço para fora e obrigando o bíceps a se estender. 

O músculo contraído de qualquer movimento chama-se agonista; o estendido é antagonista. Todo músculo dança conforme a música, ou seja, pode ser tanto agonista como antagonista depende do movimento.
Num movimento, há também músculos que se contraem apenas para fixar um membro ou o tronco inteiro e, dessa maneira, dar uma base de sustentação ao músculo que de fato se desloca. 

Por exemplo, ao cerrar o punho, aparentemente só os músculos da mão e dos dedos trabalham; mas, se os músculos do antebraço não ficassem bem contraídos para segurar o pulso, este se dobraria junto com os dedos. Para a contração, um músculo precisa de energia. Essa energia é liberada com a quebra de moléculas da substância adenosina trifosfato (ATP).

O estímulo nervoso possui determinada eletricidade que, em contato com uma substância gelatinosa que banha o músculo, encaminha uma partícula de cálcio para dentro das fibras; o cálcio, então, ativa enzimas próprias do músculo que quebram a ATP. A única questão é haver moléculas de ATP em quantidade suficiente. 

O fisiologista Turíbio Leite, ensina que existem três fontes de ATP. A primeira seria uma espécie de estoque particular do músculo. A segunda é a glicólise: reações dentro do músculo transformam a glicose das fibras ou a trazida pelo sangue em ATP e ácido láctico. 

Esta é uma substância inibidora que, ao se acumular nas fibras, causa tanta dor que a pessoa não agüenta mais contrair o músculo.

"Esse processo", explica o professor Turíbio, "produz grande quantidade de energia, mas por tempo limitado. Por isso, é um metabolismo para atividades que exigem velocidade. "Os atletas atenuam os efeitos do ácido láctico e por isso suportam melhor um acúmulo da substância. Mas quem não é atleta cede à dor e logo pára. 

Do contrário, corre o risco de sentir uma cãibra, a contração involuntária do músculo cansado, que serve de sinal de alerta. É claro que as cãibras também atacam em plena madrugada, quando se está quieto, dormindo. Mas aí o problema é neurológico uma ordem equivocada para o músculo se contrair a toda velocidade, provocada muitas vezes por estresse psicológico.

Quando o mal é meramente muscular, uma massagem local ajuda de imediato. Ela provoca mecanicamente o relaxamento do músculo contraído e, ao ativar a circulação no lugar, ajuda o sangue a espalhar o ácido láctico. 

As massagens para aliviar a tensão funcionam da mesma maneira. Pois, quando a mente faz verdadeiras acrobacias por causa de um problema qualquer, a pessoa fica literalmente tensa culpa das ordens do cérebro para contrair certos músculos que, como em toda ginástica, ficam ali gastando energia para manter a tensão e acumulando o ácido láctico.

A última fonte de ATP, o metabolismo aeróbio, é o oxigênio trazido pelo sangue, que produz a substância em reações químicas com a glicose. Nesse caso, a sobra, gás carbônico e água, é eliminada na expiração. 

Esse é o metabolismo que mais se usa no dia-a-dia: não produz velocidade, mas tem a vantagem da resistência. Todo músculo possui dois tipos de fibras: as de tipo 1, que desenvolvem mais o metabolismo aeróbico; e as de tipo 2, que realizam melhor o metabolismo da glicólise. 

Pesquisadores supõem que a prática de determinado esporte pode transformar uma fibra tipo 1 em tipo 2 e vice-versa. Mas isso nunca foi observado na prática. "Nascemos com a proporção de fibras 1 e 2 determinada", diz o fisiologista Turíbio Leite, "o que significa que temos predisposição genética para esportes rápidos ou de resistência."

Qualquer reação para produzir ATP no músculo acaba liberando muito calor. São os músculos, portanto, os responsáveis pelos 36 graus centígrados do corpo humano a temperatura ideal para que o organismo funcione direito. 

Quando o clima ameaça baixar essa temperatura, o cérebro manda os músculos se agitarem. É quando as pessoas tremem de frio.

Outra responsabilidade dos músculos é a postura corporal. Músculos enfraquecidos fazem a coluna despencar para algum lado. Por exemplo, a lordose (acentuação da curvatura lombar) é conseqüência de músculos abdominais fracos, incapazes de sustentar as vísceras; estas então caem sobre o osso da bacia que, por sua vez, joga todo o seu peso sobre a coluna lombar.

Mesmo quem não tem vocação para atleta olímpico deveria tirar o máximo proveito dos músculos que a natureza lhe deu. Está provado que músculos fortes evitam o tão doloroso endurecimento das articulações e também doenças graves como a osteoporose ou desmineralização dos ossos. 

Sempre se soube, por exemplo, que os músculos do braço direito de um tenista destro são mais desenvolvidos que os do braço esquerdo. O que se descobriu faz pouco tempo é que também os ossos do braço direito desse tenista são mais largos. Antigamente, acreditava-se que, com o passar dos anos, os músculos deviam ser poupados. Nada mais errado. 

Todos devem dançar, andar, nadar. Enfim, o segredo de tratar bem os músculos é saber que ninguém pode se dar ao luxo de ficar parado.

Por Lúcia Helena de Oliveira

As cartas do tarô

Como surgiu, o que significam as cartas.

São 78 cartas cheias de simbolismo com uma história milenar. Sua leitura sobreviveu aos séculos e está em plena moda. Para os céticos é só um jogo de adivinhação. Para os iniciados nos seus mistérios, é uma forma de autoconhecimento.

Atores, empresários, profissionais liberais, artistas plásticos enfim pessoas das mais diferentes atividades têm em comum o costume de freqüentar um certo apartamento amplo e ensolarado no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro. Ali trabalha um carioca de 30 anos, solteiro, olhos muito azuis, chamado Marcos da Silva Bordallo. 

Só que nenhum desses visitantes o trata pelo verdadeiro nome. Para eles Marcos é Namur ou melhor, professor Namur. E se o procuram é porque esperam receber uma orientação que os ajude a organizar melhor suas vidas e seus negócios. Engana-se quem imaginar que o tão requisitado Marcos-Namur é algum conselheiro espiritual ou psicólogo com formação psicanalítica.

O que ele faz, cobrando cerca de 4 mil cruzados a primeira sessão, é dar as cartas. Pois o auto-intitulado professor é um tarólogo, por sinal o mais badalado do Rio, ou seja, um especialista em tarô o misterioso baralho que, segundo os adeptos, faz as pessoas se conhecerem melhor e a partir daí terem uma boa idéia do que o futuro lhes reserva.

Os crentes nos poderes do tarô e dos tarólogos formam uma espécie em expansão. Mas o jogo é muito antigo. A própria palavra tarô, do francês tarot, viria do velho Egito, onde o baralho teria surgido, significando roda ou caminho. A história do jogo é tão obscura como o nome. Sabe-se que em 1392, Carlos VI, rei da França, encomendou por um bom preço ao pintor Jacquemin Gringonneur três pacotes de cartas. 

A primeira descrição de um baralho de tarô, porém, só apareceu séculos mais tarde. Seu autor foi o teólogo protestante francês e historiador Antoine Court de Gébelin (1725-1784). No primeiro dos nove volumes de sua obra Le monde primitif, Gébelin afirma que as cartas do tarô foram extraídas do Livro de Thoth (um deus egípcio).

No século XVIII, em plena Revolução Francesa, o jogo de tarô tornou-se moda nos salões parisienses e uma certa Mademoiselle Lenormand era o que é hoje no Rio o professor Namur lia nas cartas do tarô o destino de gente importante da época. 

Entre seus clientes estavam os líderes revolucionários Robespierre e Saint-Just. Diz-se que Mademoiselle Lenormand previu a morte dos dois na guilhotina o que talvez não fosse uma proeza, dada a facilidade com que se cortavam cabeças na França daqueles anos. 

Mas, se ela de fato previu a decapitação, nem Robespierre nem Saint-Just puderam fazer qualquer coisa para evitá-la e isso dá o que pensar sobre a utilidade de se conhecer o futuro.

Conta-se também que, anos mais tarde, Napoleão tornou-se assíduo freqüentador de Lenormand. Esse pelo menos sabia lidar à sua maneira com o futuro desvendado pela taróloga: quando as previsões o desagradavam, mandava encarcerá-la por uns tempos.

Boa parte do charme do tarô, o que ajuda a entender sua longevidade, está nas próprias 78 cartas que compõem o baralho. Elas se dividem em dois grupos: os 22 arcanos maiores fundamentais na interpretação e os 56 arcanos menores, que complementam os outros. 

A palavra arcano vem do latim arcanu, que quer dizer segredo, mistério, e cada um deles representa uma figura simbólica diferente. Por exemplo, o arcano IV (os praticantes usam a numeração romana), chamado imperador, simboliza o homem objetivo, materialista, organizado.

O professor Namur ensina que o tipo de homem simbolizado pelo imperador gosta de ser o provedor do lar, mas não se detém para tentar entender o que o outro está vivendo; geralmente é pão-duro, mas se orgulha de pagar as contas em dia; é também machão e moralista dentro de casa; ansioso e ambicioso, sonha com segurança; gosta da sacerdotisa (arcano II), que simboliza a mãe e a esposa, mas também da imperatriz (arcano III), símbolo da mulher independente, que trabalha fora, mas de quem ele finge não gostar. Se a carta do imperador sair para uma mulher, isso pode significar que procura imitar o pai.

Há uma certa carta o arcano XIII que de tão assustadora nem tem o nome impresso: é a figura da morte. Mas a morte pode não ser tão feia como a pintam. Segundo uma tranqüilizadora interpretação, essa carta simboliza o renascimento, as transformações pelas quais a pessoa está passando. 

Tudo depende de quem lê o tarô e, para complicar ainda mais as coisas, os métodos de leitura mudam de um tarólogo para outro: há quem utilize apenas os 22 arcanos maiores, por achar que isso facilita a consulta e a comparação com a leitura anterior, quando o cliente volta; outros preferem usar todas as cartas e certamente devem ter para isso motivos tão relevantes quanto os dos que optam pela versão resumida: é tudo uma questão de crer para ler.

Naturalmente, o jogo de cena no ato da leitura é da maior importância como convém a um ramo do ocultismo que tem a pretensão de entender a personalidade humana a partir do acaso de um sorteio de cartas. 

Namur, por exemplo, usa uma mesa de tampo preto, porque as cores das cartas se realçam, pulam e ajudam na concentração, como diz. Outros tarólogos preferem rituais mais elaborados. É o caso do uruguaio cujo apelido é Kucho e que prefere não revelar seu verdadeiro nome. 

Há 22 anos no Brasil e desde 1975 no ramo do tarô, ele usa uma pele de animal amarelada para cobrir a mesa de trabalho, numa saleta pouco iluminada, no porão da casa onde mora, no bairro do Pacaembu, em São Paulo.

Alto, moreno, com os traços herdados da mãe índia e do pai espanhol, Kucho cobra uma quantia simbólica para ler o tarô (ele diz que trabalha na produção de comerciais e de cinema), jamais tira cartas para si mesmo e só opera com baralhos que tenham atravessado o oceano. Isso não faz diferença alguma para o carioca Namur, que se declara criador do primeiro tarô latino-americano, um baralho desenhado pela argentina Martha Leyros, em cores vivas, bem diferentes dos tons pastel do clássico baralho francês. O nosso tem vida, emoção, chega a suar, entusiasma-se Namur.

Existem mais de mil baralhos diferentes de tarô, uma variedade à altura do número de métodos de dispor as cartas pelo menos quinhentos. Namur, por exemplo, as dispõe em círculo, na forma da mandala que em sânscrito significa círculo mágico. 

Kucho, por sua vez, as coloca na posição astral, de acordo com as casas do zodíaco. Dispor as cartas em linhas horizontais é o método utilizado pela taróloga paulista Claudine Cardoso. Mãe de três filhos, ela conta que aprendeu a mexer com o tarô aos 7 anos, quando ganhou um baralho da avó.

Também o número de cartas que o cliente tira, o número de rodadas e o tempo gasto na leitura variam. Para Namur, que se considera bom entendedor, doze cartas e uma rodada bastam. Já os clientes de Kucho devem escolher 28 cartas em quatro rodadas; na última, se quiserem, podem fazer perguntas. 

Claudine interpreta no mínimo 44 cartas. Mas nenhum deles gasta menos de uma hora na operação. Nesse complicado jogo as interpretações dos arranjos que as cartas formam variam de acordo com cada pessoa e a situação que ela vive em determinado momento, dizem os tarólogos. Por isso, se o ermitão (arcano IX) sair para uma criança, poderá simbolizar timidez; já para um homem de 50 anos será símbolo de riqueza interior.

O enforcado (arcano XII), brinca Namur, é o arcano do brasileiro, sempre com a corda no pescoço. Normalmente, os tarólogos não brincam em serviço, certamente para manter a aura de seriedade em torno daquilo que para os mais desconfiados não passa de um jogo antigo, complexo e sofisticado, mas apenas um jogo. Para o professor Namur, os fundamentos do tarô são o pensamento mágico, não racional, e a intuição seja lá o que isso signifique. Os tarólogos tomam o cuidado de advertir aos mais deslumbrados que o tarô não é um jogo de adivinhação do tipo bola de cristal.

Aponta caminhos, mas não dá soluções. Por isso, quem consultar um tarólogo na esperança de descobrir o que vai acontecer no dia seguinte estará perdendo tempo.
A verdadeira intenção do tarô, teoriza Namur, é fazer com que as pessoas se auto-analisem, já que as cartas mostram o que está ocorrendo com elas. 

Ele afirma que se as pessoas não souberem mudar sua relação com o passado, cuja resultante é o presente, acabam se repetindo; então não adianta mudar de marido, de emprego ou de casa, pois o problema permanece o mesmo. Curioso do tarô, o escritor Caio Fernando Abreu, autor de Morangos mofados, conta que na primeira vez em que consultou um tarólogo ficou espantado porque entre tantas cartas saíam exatamente aquelas cuja interpretação tinha a ver com o que eu estava vivenciando.

Ao que parece, o tarô e mesmo o I Ching o livro das mutações que surgiu na China no período anterior à dinastia Chou (1150-249 a.C.) têm como meta principal levar as pessoas a refletir sobre o que estão vivendo. Talvez por isso, um dos fundadores da psicanálise, o suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), tenha se interessado pelo tarô, entre outras simbologias. 

Seja como for, o fascínio que as várias formas de esoterismo exercem sobre as pessoas independe de sexo, religião ou atividade. Os homens, na maioria, procuram tarólogos para saber de dinheiro e negócios. Já as mulheres se preocupam com o trabalho e as questões afetivas. A curiosidade que o tarô sempre despertou nos artistas moveu o pintor espanhol e mestre do surrealismo Salvador Dali a desenhar um baralho.

Na literatura, a simbologia contida nessas cartas foi tema de poemas do francês Gérard de Nerval (1808-1855) e do norte-americano T.S. Eliot (1888-1965). E o pintor sergipano; radicado no Rio Antônio Maia, que sempre retratou temas ligados à crendice popular, decidiu comemorar seus 60 anos em outubro próximo com uma exposição de 22 telas, onde estarão pintados, em bom tamanho, um a um, os arcanos maiores do tarô.

Maria Inês Zanchetta

15/11/13

Só entendera, se for Brasileiro





























01/11/13

Aristoteles - 384-322 AC

ARISTÓTELES - MÁQUINA DE PENSAR - 384-322 AC

Nada que fosse humano lhe era estranho — nem o que se passava no céu ou na terra. Fundador da ciência, ensinou há 2.300 anos, que o conhecimento depende da razão, assim como dos sentidos.

Os fatos (sobre a reprodução das abelhas) ainda não foram suficientemente estabelecidos. Se um dia o forem, o crédito deverá ser dado à observação mais do que às teorias - e às teorias apenas na medida em que tiverem sido confirmadas pelos fatos observados.

Aristóteles, Da geração dos animais


  • A Terra está imóvel no centro do Universo. 
  • O cérebro serve para esfriar o sangue. 
  • Casais jovens têm filhos mais fracos. 
  • O olho se torna colorido ao enxergar a cor. 
  • Os objetos pesados caem mais depressa do que os leves. 
  • A mulher é por natureza inferior ao homem. 
  • O coração é o órgão da consciência. 


O autor de tais disparates é considerado o maior pensador que o gênero humano produziu em aproximadamente 2.000 anos, se não em todos os tempos - e nessa avaliação não há nenhum disparate. 

Pois, apesar dos enormes enganos que propagou, ninguém como o filósofo grego Aristóteles pesquisou, refletiu, organizou o conhecimento e escreveu sobre tantos e tão diversos assuntos deste mundo.

Sua obra, um formidável empreendimento intelectual que se esparramou por quatro centenas de pergaminhos, é invariavelmente comparada a uma enciclopédia, a Britânica do século IV antes de Cristo. 

Nela, de fato, com esses ou outros nomes, se fala de Astronomia, Zoologia, Biologia, Ética, Física, Lógica, Metafísica, Política e Teologia. 

Em suma, a vida e suas implicações devidamente catalogadas. Ainda assim, Aristóteles talvez valha menos pelo muito que pensou do que pelo modo com que pensou: ao ensinar, já então, que a verdade última de uma teoria deve ser buscada, não em pressupostos arbitrários, mas na observação dos fatos de que ela trata, e ao praticar diligentemente o que pregava, tornou-se para todos os efeitos o fundador de uma atividade que marcaria fundo o destino do homem - a ciência.

Cientista revolucionário na atitude e arcaico pela pobreza das ferramentas de trabalho ao dispor de seu tempo, astrônomo sem luneta, biólogo sem microscópio, Aristóteles escreveu elegantes tolices sobre corpos celestes e terrestres em meio a engenhosas concepções a respeito da natureza das coisas (physis, como dizia). 

Procurou desatar o nó em que se enredara a Filosofia ao encarar o enigma da transformação da matéria com uma requintada teoria sobre o sentido e as causas do movimento.

Percebeu, com extraordinária sagacidade, que nos seres vivos os traços comuns a um gênero precedem as características próprias de uma espécie; preso na camisa-de-força de sua rígida classificação hierárquica das formas vivas, por um triz não atinou com a evolução. 

Foi o primeiro a distinguir os fenômenos puramente físicos que causam a sensação da experiência propriamente dita da sensação; não separá-los, argumentava, equivaleria a acreditar que os espelhos enxergam.

Libertou o estudo da Ética do abraço estéril das abstrações místicas para ancorá-lo nas realidades do cotidiano, a começar dos fatos que dizem respeito à vida em comunidade (polis). 

Nesse sentido, ensinou, o homem é zoon polytikon, animal político. Não obstante racista, conservador e escravocrata, o rol de temas sociais sobre os quais se manifestou com espírito afiado continua ainda hoje a confrontar as ciências humanas. 

Dos conceitos que utilizou para explicar o mundo - como gênero e espécie, forma e matéria, substância e organismo, causa e finalidade -  formou-se o vocabulário científico que ajudaria a encaminhar gerações de pesquisadores no rumo seguro da descoberta e da invenção. 

As regras que governam o raciocínio também foram originalmente codificadas por ele, tanto para policiar o trabalho da mente, na paz da meditação filosófica, quanto para desmontar a lábia dos demagogos, na agitação da Assembléia ateniense.

Não por acaso: as preocupações de Aristóteles, como as de seu mestre Platão, embora tivessem a cabeça nas nuvens das eternas indagações sobre a origem das coisas e a natureza dos seres, fincavam os pés no chão próximo das questões relativas aos caprichos da conduta humana, às leis e às formas mais adequadas de governo - e essa dupla militância tem a cara do lugar e da época em que viviam. 

A interrogação primeira era antiga. Desde o século VI aC., com efeito, os gregos jônios se destacavam ao buscar uma explicação natural para o Universo. Filósofos como Tales de Mileto, Anaximandro, Anaximenes, Anaxágoras, Heráclito, Parmênides, Empédocles, Demócrito - os chamados pré-socráticos - entraram para a História por terem tentado dizer, sem recorrer à religião, o que é e como funciona o mundo.

Mas, com a ascensão e posterior crise das cidades-estados autônomas, como Atenas, Esparta, Tebas, os homens de pensamento foram inevitavelmente atraídos também pelos problemas que iriam compor o repertório de uma ciência voltada exclusivamente para a política. 

O tempo de Aristóteles é o do entardecer das cidades-estados gregas em geral e de Atenas em particular. Quando ele nasceu, no verão de 384 aC., vinte anos tinham se passado desde o fim da Guerra do Peloponeso, em que, após três décadas de desgraças, Esparta finalmente, firmou sua hegemonia sobre Atenas, sinalizando o inimigo da lenta decadência daquela que um século antes tinha alcançado o apogeu nas leis, nas artes e na cultura entre todas as sociedades da Antiguidade.

Mesmo depois da derrota, porém, não havia na Grécia inteira cidade que se lhe comparasse e que tanto fascínio pudesse exercer sobre um jovem de boa cabeça e boa família - como era o caso de Aristóteles. 

De origem jônica, sua terra natal era Estagira, pequena colônia helênica na Península Calcifica, na costa setentrional do Mar Egeu, região dominada pelos macedônios, cerca de 320 quilômetros ao norte de Atenas. 

Criou-se em Pela, capital da Macedônia, onde seu pai, Nicômaco, era médico do rei Amintas III, que viria a ser pai de Filipe II e avô de Alexandre, o Grande. Ocupação tradicional em certas famílias, a Medicina passava de geração em geração pelo aprendizado prático. 

Supõe-se, portanto, que Aristóteles aprendeu ao menos os rudimentos da atividade médica - e esse teria sido o germe de seu gosto pela Biologia.

Por volta dos 17 anos, depois da morte do pai, o tutor Proxeno fez a coisa certa - mandou-o estudar na melhor escola da melhor cidade grega, a Academia de Atenas.

Fundada por Platão três anos antes do nascimento de Aristóteles, a Academia tanta importância dava às matemáticas que desaconselhava o ingresso nela "de quem não soubesse Geometria". 

É duvidoso que o jovem de Estagira tivesse maior intimidade com o mundo dos teoremas, como é certo que o futuro cientista jamais demonstraria especial apreço pelos números. 

De modo que, quando se matriculou na instituição, Platão estava em Siracusa, na Sicília, tentando incutir no tirano local, Dionisio II, os ensinamentos capazes de transformá-lo em algo parecido ao ideal platônico do rei-filósofo.

Só cerca de um ano depois, o grande pensador e o estudante promissor foram apresentados um ao outro. Começou aí uma bela amizade, um convívio duradouro e uma ligação intelectual tão intrincada, no que teve de convergências e divergências, a ponto de se tornar um perene motivo de pesquisas e polêmicas entre os historiadores da Filosofia. 

Montanhas de teses já foram escritas sobre o indomável mistério da proporção exata de platonismo e de antiplatonismo na química das idéias aristotélicas, até porque menos de um terço dos trabalhos específicos de Aristóteles sobreviveram até os tempos atuais. 

Para alguns investigadores, Aristóteles operou um rompimento revolucionário com as rarefeitas abstrações do mestre - e a ciência só teria a lhe agradecer por isso. Para outros, ele não passa de um Platão diluído pelo senso comum. 

Para outros ainda, talvez mais imaginosos, Aristóteles foi platônico de cabo a rabo; antiplatônico mesmo teria sido seu sucessor Teofrasto, o verdadeiro autor da maioria dos tratados atribuídos a Aristóteles.

Platão dizia que o mundo que o homem percebe, caótico e mutável, é apenas uma sombra deformada do perfeito e inabalável Mundo das Idéias - e este é o único que interessa conhecer. 

Daí a importância da Matemática, toda ela uma coreografia mental de conceitos puros, como os números e as formas geométricas. Aristóteles, embora concordasse que o objeto último do saber é a essência das coisas, sustentava que o mundo aparente era plenamente real - e estava ao alcance da razão humana. Daí a importância da observação empírica das manifestações da natureza.

Platão, de outro lado, acreditava na existência da alma imortal. Aristóteles também acreditava na alma, porém como parte do corpo, que morre com ele. Na sociedade ideal de Platão não havia lugar nem para a família nem para a propriedade privada. Na sociedade desejada por Aristóteles, uma e outra eram indispensáveis.

É indiscutível que o professor Platão tinha na mais alta conta seu aluno do norte, a quem chamava "o leitor", pelo entusiasmo com que se dava aos textos e pelo prazer em colecioná-los, e "a mente", pelo vigor de seu intelecto. 

"Minha Academia compõe-se de duas partes: o corpo dos estudantes e o cérebro de Aristóteles", deslumbrava-se o dono da escola. A maioria dos historiadores afirma que ele permaneceu ali até a morte de Platão, em 348 ou 347 aC., passados vinte anos de sua chegada a Atenas. 

Segundo outra versão Aristóteles deixara a Academia bem antes, por conta das discordâncias entre eles. Ressentido, o mestre teria feito então um pesado desabafo: "Aristóteles me despreza como o potro que escoiceia a mãe que o deu à luz".

O sucessor de Platão no comando da instituição foi seu sobrinho Espeusipo. Junto com os amigos e colegas Teofrasto e Xenócrates, Aristóteles deixou Atenas - e só voltaria dali a doze anos. 

Diz-se que a nomeação de Espeusipo frustrara Aristóteles. Na verdade, na condição de meteco, isto é, não-ateniense, pelas leis da cidade ele não poderia ser dono de escola (ou de coisa alguma). 

Ademais, simpatizantes de macedônios, como Aristóteles, haviam se tornado malvistos em Atenas em seguida ao recente saque da cidade estado de Olinto, ordenado por Filipe II. Aristóteles foi morar em Assos, recém-construída cidade litorânea da Ásia Menor (hoje Turquia), a leste da Ilha de Lesbos, no Mar Egeu.

Hérmias de Atarneu, um antigo escravo transformado em aventureiro, havia tomado o poder na região, governando um pequeno estado vassalo do Império Persa. Ex-integrante da Academia, queria propagar a cultura e a filosofia helênicas em terras asiáticas e para isso convidou Aristóteles e o platônico radical Xenócrates. 

Lecionando em Assos, ali também se casou, aos 37 anos, com Pítias, não se sabe se filha adotiva ou sobrinha de Hérmias. Não seria de admirar se Pítias tivesse 18 anos. Afinal, na Política, o filósofo escreveria que a época ideal para o homem casar-se era aos 37 e, para a mulher, aos 18. 

Foi, porém, um casamento breve, pois a mulher morreu ainda jovem, depois de lhe dar uma filha, batizada com o nome da mãe. Ele se casaria pela segunda vez com uma certa Hérpilis, com quem teve um filho, ao qual deu o nome do avô paterno, Nicômaco. 

Hérpilis sobreviveu a Aristóteles e dele recebeu uma polpuda herança, "em reconhecimento à constante afeição que ela me demonstrou", como justificou em seu testamento.

Os traços de Aristóteles nos bustos que dele existem são os de um homem bonito, de feições refinadas. Consta, no entanto, que ele tinha olhos miúdos, pernas finas como varetas e ainda por cima ciciava ao falar. 

Talvez para compensar, vestia-se muito bem, com túnicas e sandálias da melhor qualidade, e gostava de usar anéis. Segundo um relato, costumava aplicar compressas de óleo quente no estômago para acalmar uma dor crônica. 

A pacata vida em Assos foi bruscamente interrompida em 344, quando Hérmias foi aprisionado e condenado à morte pelos persas, sob a acusação de conspirar com a Macedônia contra o Grande Rei Artaxerxes. 

Aristóteles compôs um hino arrebatado em seu louvor, o que muito tempo depois lhe traria graves dissabores.

Prudentemente, mudou-se para Mitilene, capital de Lesbos, onde vivia seu amigo Teofrasto. Quem ganhou com isso foi a ciência. Pois ali ele se dedicou às pesquisas biológicas, estudando meticulosamente a anatomia e o comportamento de numerosas espécies marinhas. 

Certos órgãos do ouriço do-mar, a propósito, ficaram conhecidos como "lanternas de Aristóteles", devido à cuidadosa descrição que fez deles. Isso indica que suas pesquisas incluíam a prática da dissecação. Foi ainda o pioneiro da Embriologia, ao observar e analisar as transformações em embriões de pintos. 

No fim de 343 ou no início de 342 aC., na casa dos 42 anos, reconhecido como a maior figura intelectual da Grécia, voltou a Pela, a capital da Macedônia, para atender a um convite do rei Filipe II, ser tutor de seu filho adolescente Alexandre, destinado pelo pai a liderar o já unificado mundo grego contra o Império Persa.

Como preceptor de um príncipe, Aristóteles exercia uma atividade que Platão, coerente com a sua utopia do rei- filósofo, teria sabido apreciar. Mas o que devia tornar o emprego atraente para Aristóteles estava na oportunidade de transmitir a um monarca macedônio, além da cultura grega, a sua apaixonada convicção da superioridade da raça helênica sobre todas as demais. 

Aristóteles acreditava piamente - e convenientemente - que os gregos eram os únicos dotados pela natureza para uma vida elevada, dedicada à arte, às ciências, às leis, à contemplação filosófica, cabendo aos bárbaros, também naturalmente, pegar no pesado como servos ou escravos. 

A tal ponto ia o racismo de Aristóteles, que ele aconselhava Alexandre a evitar casamentos entre gregos e não-gregos. Os historiadores, contudo, tendem a duvidar que o filósofo tenha tido alguma influência digna do nome sobre o futuro conquistador do mundo - que, por sinal, casou-se com uma nobre persa.

Em 338 aC., os macedônios derrotam os atenienses na Batalha de Queronéia, encerrando o extraordinário período da Grécia Antiga caracterizado pelas cidades-estados independentes e inaugurando a era imperial. 

Mais de um historiador já chamou a atenção para o fato de que o foco do pensamento político de Aristóteles nunca deixou de ser a cidade-estado, mesmo quando até as pedras da Acrópole sabiam que a instituição estava à beira do aniquilamento. 

Ele deixou Pela em 336 aC., ano em que Filipe II morreu assassinado e Alexandre subiu ao trono. A julgar pelo que se conhece de seus escritos, o filósofo não parece ter-se dado conta em momento algum das colossais mudanças políticas desencadeadas pelos feitos do imperador macedônio.

Depois de uma temporada de recolhimento na propriedade paterna em Estagira, Aristóteles voltou enfim a Atenas. Tinha quase 50 anos; os doze seguintes seriam os mais fecundos de sua vida intelectual. 

Homem de posses, tomou a decisão de abrir uma escola rival da Academia, então dirigida pelo velho amigo Xenócrates. Surgiu desse modo o Liceu, assim chamado por localizar-se numa edificação vizinha ao templo de Apolo Liceano, num bosque próximo à cidade, mencionado por Platão como um dos lugares preferidos por Sócrates para suas reflexões. 

Na melhor tradição socrática, o método de ensino no Liceu era o do diálogo dialético lético em vez do monólogo da aula magisterial. Havia um pátio coberto, operipatos (passeio, em grego), por onde mestres e discípulos caminhavam entretidos em altas indagações. Daí o nome, peripatética, pela qual a escola se tornou conhecida.

Aristóteles organizou o Liceu como um centro de pesquisa e de elaboração teórica nas mais diversas áreas do conhecimento - mas sempre com ênfase na Biologia e nas ciências naturais. 

Do velho hábito dos tempos da Academia, colecionar manuscritos, organizou uma biblioteca, talvez a primeira da História, onde ficavam também todos os materiais necessários à pesquisa, além dos espécimes animais e vegetais estudados. 

Era um ambiente muito mais parecido com um estabelecimento científico moderno do que com um templo dedicado à Filosofia pura. Autor prolífico, Aristóteles escrevia tanto para o consumo interno dos liceanos como para o consumo externo do grande público - e sabia ajustar o estilo ao leitor. 

Do conjunto de sua obra referida na Antiguidade (mais de 170 trabalhos independentes), apenas 47 alcançaram o homem moderno. Em 1831, foram editados em Berlim, no original grego, ocupando dois volumes.

Sistematizador e meticuloso como nenhum outro pensador antes dele e como poucos depois, redigia à maneira de "um professor profissional, não um profeta inspirado", na sugestiva comparação do filósofo e matemático inglês Bertrand Russell (1872-1970). 

Ainda bem, talvez fosse o caso de dizer, porque seu cuidado em começar a análise de qualquer assunto pela exposição das idéias manifestadas a respeito pelos antecessores fez dele o primeiro historiador da Filosofia, graças a quem foi possível conhecer como os pioneiros do pensamento racional - os pré-socráticos - concebiam a matéria, o movimento e o Universo. 

Em seguida, ele expunha sucessivamente os próprios pontos de vista preliminares sobre o assunto, os argumentos e objeções de terceiros, as conclusões finais a que chegava e as dúvidas que eventualmente permaneciam. O conjunto, embora uma chatice como leitura, tem a rara virtude de mostrar ao vivo um filósofo filosofando.

No verão de 323 aC., atônita e perplexa, Atenas recebeu a incrível notícia da morte de Alexandre, o Grande, aos 33 anos. Passado o pasmo, seguiu-se uma onda antimacedônica que acabaria por atingir Aristóteles em cheio. 

Querendo punir o antigo preceptor de Alexandre por suas ligações presentes com o governador macedônico local, Antípater, assacaram contra ele a temível acusação de impiedade (ofensa aos deuses), a mesma que levara Sócrates à morte 76 anos antes. 

O pretexto não podia ser mais exótico - o poema com que, duas décadas atrás, Aristóteles havia praticamente deificado a memória do amigo Hérmias, o rei de Assos executado pelos persas. 

Para salvar a pele, aceitou exilar-se voluntariamente em Calcis, na Península de Eubéia, cerca de 60 quilômetros ao norte de Atenas, dizendo que assim poupava os atenienses de cometer "um segundo crime contra a Filosofia". 

Ali morreu em 322 aC., aos 62 ou 63 anos, vítima talvez da doença do estômago que o teria acompanhado pela vida afora. O Liceu sobreviveu a Aristóteles mais de 250 anos. O trabalho de seu fundador, passados dois milênios, continua vivo. 

Muitas pessoas têm um potencial incrível para determinadas obras, específicas, extremamente necessárias à sua comunidade, e talvez ao mundo todo. Mas, deixam de trazer um grande bem à humanidade porque esbarram na idéia de que seu trabalho não será reconhecido, que tudo o que fizerem logo passará, deixará de ser valorizado. 

Lembram-se de tantos exemplos históricos, e até bíblicos, de pessoas que deram sua vida pela humanidade, e morreram e permanecem no mais absoluto obscurantismo. Por isto, passam a gastar seu tempo e seus talentos em benefício próprio, em busca da satisfação de seus prazeres e desejos pessoais.

Não temos dúvidas que a História é repleta de ilustres desconhecidos. Nossa ingratidão natural ao coração pecaminoso nos leva a esquecer o bem que tantos trouxeram à nossa existência. 


MARCELO CARVALHO 21/12/98.

03/11/12

Proverbio

 "A paciência é uma árvore de raiz amarga, mas de frutos muito doces." Persa

 "Não caia antes de ser empurrado." Inglês

 "Duas coisas indicam fraqueza: calar-se quando é preciso falar, e falar quando é preciso calar-se!" Persa

"Ao término do jogo, o rei e o peão voltam para a mesma caixa." Italiano

 "Ser pedra é fácil, difícil, é ser vidraça." Chinês

 "Tropeçamos sempre nas pedras pequenas, as grandes logo enxergamos." Japonês

 "Nunca bata uma porta; você pode querer voltar!" Espanhol

 "Dentro de mim há dois cachorros: um deles é cruel e mau; o outro é muito bom.  Os dois estão sempre brigando. O que ganha a briga é aquele que eu alimento mais freqüentemente." Indios norte-americanos 

 "Não tenha medo de crescer lentamente. Tenha medo apenas de ficar parado." Chinês 

 "Os ausentes estão sempre errados." Chinês 

 "Não há melhor negócio que a vida. A gente a obtém a troco de nada!" Judaico 

 "Não pense que não há crocodilos só porque a água está calma." Malaio 

 "É melhor morrer de pé do que viver ajoelhado." Revolução Espanhola

 "Os professores abrem a porta, mas você deve entrar por você mesmo." Chinês

"Levante sua vela dez centímetros e você ganha um metro de vento." Chinês

"Caia sete vezes, levante-se oito." Japonês

"Quando você tem que comprar, use seus olhos, não seus ouvidos." Checo

"Quando não existem inimigos interiores, os inimigos exteriores não conseguem ferir você." Africano

 "Visão sem ação é um sonho acordado. Ação sem visão é um pesadelo." Japonês

"Não jogue fora o balde velho até que você saiba se o novo segura água." Sueco

 "Uma ferida ruim pode sarar, mas uma reputação ruim matará." Escocês

 "Mesmo a melhor das cobras é uma cobra."  Árabe

 "Se você esparrama espinhos, não ande descalço."  Italiano

 "Não conseguimos espantar uma mosca ficando bravos com ela."  Africano

 "Frequentemente, aquele que faz demais, faz muito pouco."  Italiano

 "Melhor curvar-se do que se quebrar."  Escocês

 "O que você não vê com os seus olhos, não testemunhe com a sua boca." Judeu

 "Todos são formados da mesma massa de farinha, mas não cozidos no mesmo forno." Iídiche

14/07/12

Quer mais sopa?

Em cidade interiorana havia um homem que não se irritava e não discutia com ninguém.

Sempre encontrava saída cordial, não feria a ninguém, nem se aborrecia com as pessoas.

Morava em modesta pensão, onde era admirado e querido.

Para testá-lo, um dia seus companheiros combinaram levá-lo à irritação e à discussão numa determinada noite em que o levariam a um jantar.

Trataram todos os detalhes com a garçonete que seria a responsável por atender a mesa reservada para a ocasião. Assim que iniciou o jantar, como entrada foi servida uma saborosa sopa, que o homem gostava muito.

A garçonete chegou próxima a ele, pela esquerda, e ele, prontamente, levou seu prato para aquele lado, a fim de facilitar a tarefa.

Mas ela serviu todos os demais e, quando chegou a vez dele, foi embora para outra mesa.

Ele esperou calmamente e em silêncio, que ela voltasse. Quando ela se aproximou outra vez, agora pela direita, para recolher o prato, ele levou outra vez seu prato na direção da jovem, que novamente se distanciou, ignorando-o.

Após servir todos os demais, passou rente a ele, acintosamente, com a sopeira fumegante, exalando saboroso aroma, como quem havia concluído a tarefa e retornou à cozinha.

Naquele momento não se ouvia qualquer ruído. Todos observavam discretamente, para ver sua reação.

Educadamente ele chamou a garçonete, que se voltou, fingindo impaciência e lhe disse: o que o senhor deseja?

Ao que ele respondeu, naturalmente: a senhora não me serviu a sopa.

Novamente ela retrucou, para provocá-lo, desmentindo-o: servi, sim senhor!

Ele olhou para ela, olhou para o prato vazio e limpo e ficou pensativo por alguns segundos...

Todos pensaram que ele ia brigar... Suspense e silêncio total.

Mas o homem surpreendeu a todos, ponderando tranqüilamente: a senhorita serviu sim, mas eu aceito um pouco mais!

Os amigos, frustrados por não conseguir fazê-lo discutir e se irritar com a moça, terminaram o jantar, convencidos de que nada mais faria com que aquele homem perdesse a compostura.

Moral: Ao protagonista da nossa singela história, não importava quem estava com a razão, e sim evitar as discussões desgastantes e improdutivas.

A pessoa que se irrita aspira o tóxico que exterioriza em volta, e envenena-se a si mesma.


30/06/12

Sua Vida em 50 Segredos


Cinco povos ao redor do mundo se destacam pela longevidade: eles vivem, em média, dez anos a mais do que o restante da humanidade. Conheça agora seus principais hábitos de vida

por Rita Trevisan e Giovana Pessoa

 
Gene Stone teve a oportunidade de escrever sobre inúmeros tratamentos adotados com sucesso para curar doenças. Porém, continuava ficando de cama. "Também notei que havia populações em que as pessoas nunca ficavam doentes. Então me ocorreu que eu devesse perguntar a essas pessoas o que elas faziam", disse Stone em entrevista à VivaSaúde.

As respostas estão no livro Os segredos das pessoas que nunca ficam doentes, recém-lançado nos EUA. Em suas andanças, Stone percebeu que cinco povos eram os mais saudáveis: a Barbagia, na Itália; Okinawa, no Japão; a comunidade dos Adventistas do Sétimo Dia, na Califórnia; a Península de Nicoya, na Costa Rica; e a ilha grega de Ikaria.

Outro americano, Dan Buettner, escreveu sobre o tema em um livro que virou best-seller: Blue Zones: lições de pessoas que viveram muito para quem quer viver mais. Ambos os autores nos ajudaram a traduzir as experiências dessas pessoas. Confira 50 dicas eficazes, comentadas por 21 especialistas brasileiros.


01. Beber água mesmo sem ter sede
A água está para o corpo humano assim como o combustível para o carro. Isso porque, sem manter os nossos níveis hídricos sempre abastecidos, todo o organismo sofre. O líquido ajuda a aumentar a saciedade, evitando compulsões que podem levar ao sobrepeso e ao aparecimento de diversas doenças, ao mesmo tempo que mantém a saúde do sistema renal. "É o baixo consumo de água que resulta em urina concentrada e na maior precipitação de cristais, justamente o que leva à formação das pedras nos rins", adverte a nutricionista amanda epifânio Pereira, do Centro Integrado de Terapia Nutricional. sucos naturais, chás e água de coco também podem ser usados.


02. Ir ao dentista regularmente
A boca é como um espelho a refletir a saúde do organismo. Daí a importância de permitir que um profissional a examine a cada seis meses. "Muitas doenças sistêmicas, como diabetes, alterações hormonais e lesões cancerígenas podem ser detectadas numa consulta de rotina", diz o periodontista Cesário Antonio Duarte, professor da Universidade de São Paulo (USP). Além disso, o tratamento das cáries deixa o organismo protegido contra inúmeras doenças. "Cáries não tratadas podem se tornar a porta de entrada para micro-organismos, que poderão atingir órgãos nobres como coração, rins e pulmões", alerta o especialista.


03. Ingerir mais nozes
Bateu aquela fome de fim de tarde? Experimente comer duas unidades de nozes todos os dias. Esse é um dos segredos dos Adventistas da Califórnia. Cerca de 25% deles comem nozes cinco vezes por semana. E diminuíram pela metade o risco de problemas cardíacos.


04. Temperar com alho
"Ele melhora a saúde do coração, diminui os níveis de colesterol, a pressão arterial e potencializa as nossas defesas", afirma a nutricionista funcional Gabriela Soares Maia.


05. Comprar alimentos regionais
Se puder privilegiar alimentos produzidos na sua região, sua saúde sairá ganhando. Isso porque os produtos da safra, que não recebem uma grande quantidade de conservantes, em geral, são muito mais ricos em nutrientes. Agora, se você puder ir pessoalmente à feira ou à quitanda do bairro, tanto melhor.


06. Comer mais frutas
Aumentar o consumo de produtos de origem vegetal é uma das medidas mais significativas na prevenção de doenças crônicas. A prática foi observada em pelo menos quatro das cinco Blue Zones e é fácil entender o porquê. "Frutas, legumes e verduras possuem uma quantidade de vitaminas antioxidantes, boas gorduras e fibras que supera em muito a dos alimentos industrializados", diz Isis Tande da Silva, do Ganep Nutrição Humana.


07. Aprender a planejar
A tensão constante é extremamente prejudicial à saúde. "Ela afeta o funcionamento do sistema nervoso, hormonal e imunológico", alerta o psicólogo Armando Ribeiro das Neves Neto, professor da USP. Uma boa maneira de controlar essas reações é não deixar todos os compromissos para a última hora. "Acostume-se a anotar suas pendências em uma lista", diz o especialista em produtividade pessoal Christian Barbosa.


08. Fracionar a dieta
Comer mais vezes ao dia e optar por porções menores é um jeito inteligente de manter o peso estável. "Os jejuns prolongados desencadeiam uma fome tão intensa que é fácil se exceder nas refeições", explica a endocrinologista Ellen Simone Paiva, do Centro Integrado de Terapia Nutricional. Quando dividimos a nossa alimentação diária em cinco ou seis refeições, também estamos dando uma forcinha ao processo de digestão e ao intestino, evitando sobrecargas.


09. Aproveitar o contato com a natureza
Sinta o cheiro da grama molhada, escute os pássaros, sente-se na sombra de uma árvore... Pratique essa terapia sempre que possível, já que ela é altamente relaxante. "A vegetação transfere umidade ao ar e, portanto, o ambiente fica ionizado negativamente. Isso provoca uma reação química no organismo, gerando uma sensação de muita calma", explica a arquiteta Pérola Felipetti Brocanelli, professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie. A psicóloga Solange Martins Ferreira, do Hospital Santa Catarina, garante que as atividades ao ar livre também contribuem para recuperação de pacientes: "Quando observam a natureza, eles tiram a atenção da doença".


10. Levantar peso
A ideia não é apenas ficar forte. "Um dos principais benefícios é o aumento da densidade óssea, auxiliando na prevenção da osteoporose e na reversão da sarcopenia (diminuição no número de sarcômero, a unidade do músculo esquelético). Isso evita a incapacidade funcional, muito comum em idades avançadas", diz Ricardo Zanuto, fisiologista e professor de Educação Física das Faculdades Integradas de Santo André.
 

11. Ser um voluntário
Se você ainda não conseguiu um tempo para isso, é bem provável que não tenha encontrado a causa certa. "Quando se apaixonar de verdade por um trabalho social, acabará colocando-o na lista de prioridades", garante o especialista em produtividade pessoal Christian Barbosa. "Dedicar uma noite por semana já é um bom começo", diz Dan Buettner.


12. Celebrar a vida
Não espere algo de extraordinário acontecer, mas acostume-se a comemorar as pequenas vitórias. Essa é a receita de longevidade dos italianos que vivem na Sardenha, uma das Blue Zones. Eles chamam a atenção pela disposição que têm para festejar tudo e todos.


13. Cultivar a sua fé
"A religião empresta sentido às buscas e conquistas do ser humano, dá uma nova dimensão às vitórias e também às perdas. Além disso, orienta e ajuda as pessoas a tomar decisões difíceis", explica Jorge Claudio Ribeiro, professor de Teologia da PUC-SP.


14. Trocar o café pelo chá-verde
Ainda que você precise do café para acordar, faça a substituição. Afinal, o cháverde também contém cafeína, que funciona como estimulante. O bom é que ele oferece outros extras. "Diversos estudos mostram que a bebida atua na prevenção e no tratamento de doenças como Alzheimer e Parkinson", afirma a nutricionista Andréia Naves.


15. Pegar leve com as carnes vermelhas
Embora sejam importantes fontes de ferro, são alimentos de difícil digestão e, portanto, retardam o funcionamento intestinal. Então, se você é do tipo que não pode viver sem um bifinho, contente-se com um filé médio por dia.


16. Praticar mais atividade aeróbica
Pode ser uma caminhada ou uma corrida. Esse tipo de exercício tem impacto direto sobre os fatores de risco associados à hipertensão, ao diabetes e à obesidade. "A prática regular melhora a força e a flexibilidade, fortalece ossos e articulações, facilita a perda de peso e diminui o colesterol", afirma Zanuto.


17. Encontrar a sua tribo
Se você gosta de esportes, certamente irá sentir-se bem com amigos que também gostam. Portanto, faça um esforço para encontrar pessoas com quem possa compartilhar e trocar ideias. "Uma das atitudes mais importantes para garantir a longevidade é cercar-se de pessoas que vão lhe dar suporte e que conectam ou reconectam você com o sentido maior que você dá à sua vida", diz Dan Buettner.


18. Ser agradável
Facilita a convivência social e cria vínculos com pessoas que poderão apoiá-lo quando necessário. Mas como tornar-se uma pessoa agradável? O autor Dan Buettner é quem responde: "Para isso, é preciso ser interessado e não apenas interessante. Pessoas simpáticas perguntam a você como está em vez de falarem apenas de si mesmas".


19. Definir seus objetivos
É o que os moradores de Okinawa chamam de ikigai e os habitantes de Nicoya nomeiam de plano de vida. Seja como for, o fato é que eles têm muito bem definidas as suas razões de viver e investem nesses propósitos.


20. Conhecer melhor a ioga
Ela une princípios da meditação, exercícios para o equilíbrio, alongamento e o treinamento de força, com foco na respiração. Tudo isso graças à execução de movimentos sequenciados. "A ioga é ótima para a longevidade, porque fortalece os músculos e ligamentos. Então, os movimentos tornam-se mais fluidos e seguros. A prática tem ainda um efeito importante na redução do estresse", diz Dan Buettner.
 

21. Guardar o despertador na gaveta
Dormir bem significa dar ao corpo a chance de se recompor totalmente. "Se você se deita, dorme logo e acorda bem disposto, pode dizer que tem um sono de qualidade", ensina o neurofisiologista Flavio Alóe, do Centro de Estudos do Sono do Hospital das Clínicas (SP). Quem não tem, corre um risco muito maior de adoecer. "Aqueles que dormem pouco podem ter um aumento do colesterol e dos triglicérides", complementa Alóe.


22. Apostar nos integrais
Não basta comer pão integral. Com um pouco de criatividade, é possível incluir a farinha e aveia integrais na preparação de inúmeros pratos. Quer um bom motivo para fazer isso? Pois saiba que os alimentos não processados oferecem um aporte muito maior de nutrientes. "No processo de refinamento, o germe dos grãos são retirados, restando praticamente o amido", explica a nutricionista Patrícia Morais de Oliveira, do Ganep.


23. Pensar na sua vocação
Fazer o que gosta é uma forma eficiente de afastar o estresse. Além disso, é interessante que o seu tipo de trabalho seja capaz de fazê-lo sentir-se realizado. Por último, saiba que aquele que se empenha em uma carreira para a qual há um sentido profundo, além da manutenção da renda, se sente mais motivado a investir na atualização dos conhecimentos. E estudar, como já vimos, é um santo remédio para o cérebro.


24. Doar seus pratos grandes
A população de Okinawa descobriu um jeito de comer 30% menos: eles utilizam pratos de apenas 23 cm de diâmetro. "Há experiências promissoras sendo realizadas por meio da restrição calórica orientada, que já se mostrou capaz de aumentar o tempo de vida de animais de laboratório em 60%", afirma Ellen Paiva.


25. Ter atitudes positivas
"As emoções fazem parte daquilo que somos e, portanto, são capazes de provocar reações físicas muito claras. As positivas curam e determinam uma maior e melhor qualidade de vida", diz Armando Ribeiro das Neves Neto.

 
26. Emagrecer a despensa
Na hora da compra, elimine os alimentos que possuem qualquer quantidade de gordura trans e evite os que contêm gorduras saturadas. E por um motivo simples: as chamadas gorduras ruins têm relação com o aumento dos níveis de colesterol LDL e triglicérides, fazendo crescer o risco de infarto e de acidente vascular cerebral. "Além dos industrializados, convém tomar cuidado com os alimentos de origem animal, como carnes gordas", alerta a nutricionista Andréia Naves, da VP Consultoria Nutricional.


27. Saber como usar a soja
Em Okinawa, no Japão, o consumo de produtos da soja é o maior de todo o mundo. O resultado? Dos cerca de 1 milhão de habitantes locais, mais de 900 pessoas já passaram dos 100 anos. "O consumo frequente reduz os riscos de doenças cardiovasculares", afirma a nutricionista Renata C. C. Gonçalves, do Ganep.


28. Estudar sempre
Manter as atividades intelectuais é uma maneira de garantir anos extras de vida e muito mais saúde, principalmente nas idades avançadas. "Exercitar o cérebro vai deixá-lo mais protegido contra doenças. Na prática, isso significa um risco menor de limitações físicas, mesmo se algo der errado porque, nesse caso, a recuperação será muito melhor", explica o neurologista André Gustavo Lima, do Hospital Barra D´or.


29. Ter um dia só para você
Os Adventistas do Sétimo Dia que vivem em Loma Linda, na Califórnia, recolhem-se em suas casas aos sábados e aproveitam a ocasião para meditar e orar. E esse parece ser mais um bom hábito que poderíamos nos esforçar em copiar. Afinal, essas pessoas vivem de cinco a dez anos mais que o resto da população americana. "Se for impossível fazer isso, tente conseguir pelo menos 15 a 20 minutos por dia para não fazer nada, ou melhor, para pensar apenas. É como marcar uma reunião consigo mesmo", diz Christian Barbosa


30. Apagar o cigarro
Quem tem menos 40 anos e fuma até 20 cigarros por dia tem quatro vezes mais chances de infartar. Agora, se o consumo for maior, o risco sobe 20 vezes. A explicação é simples: as substâncias do cigarro levam à contração dos vasos sanguíneos, à aceleração dos batimentos cardíacos, além abaixar o HDL, que age como um protetor das artérias.


31. Ouvir a sua música
A musicoterapeuta Maristela Smith, das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), tem uma receita interessante para quem quer tirar proveito da terapia da música. "Faça um CD com as músicas que marcaram positivamente a sua vida para criar a sua identidade sonora musical. Escute-o regularmente, principalmente quando estiver precisando melhorar o astral", ensina a especialista.


32. Respirar com consciência
Quando estiver precisando relaxar ou desacelerar seu ritmo, faça a respiração completa. "Inspire calmamente o ar pelo nariz, contando três segundos. Então, bloqueie a respiração por um tempo, retendo o ar, e expire pela boca em seis segundos. Assim, você estará atuando diretamente sobre o sistema nervoso autônomo", ensina o educador físico Estélio Dantas, professor da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro.


33. Curtir os animais
Mesmo que não possa ter um em casa, descubra aqueles com os quais possui mais afinidades e dê a si mesmo a oportunidade de tocá-los. Para a veterinária Maria de Fátima Martins, professora de Zooterapia da USP, a convivência com os bichos é uma rica fonte de benefícios psicológicos, físicos e sociais. Ela coordena uma experiência de terapia assistida com animais em asilos. "O contato com os animais tem melhorado a vida dessas pessoas. Para alguns idosos, a experiência foi tão positiva que eles chegaram a diminuir o número de medicamentos que tomavam", conta.


34. Ser muito mais ativo
Comece descendo alguns pontos antes do ônibus. Fazer mais atividades a pé ou de bicicleta, cozinhar, cuidar do jardim, brincar com o seu cachorro, todas essas maneiras de se mexer são válidas. "Um dos segredos da longevidade é encontrar meios de se manter sempre em movimento. De preferência, concentre-se em atividades que também lhe dão prazer, e os benefícios serão maiores", sugere Dan Buettner.


35. Desacelerar o ritmo
"Se você não cria um tempo para estar bem, terá que ter tempo para se cuidar quando ficar doente", alerta Dan Buettner. O primeiro estágio do estresse é a fase de alerta. Ele nos permite realizar muitas tarefas em pouco tempo e aí nos sentimos bem. Porém, quando persistimos na tensão, o organismo entra em fadiga.


36. Comer mais iogurtes
"Eles reforçam a nossa imunidade", explica a nutricionista Gabriela Maia, da Clínica Patricia Davidson Haiat. O que as bactérias vivas contidas nesses potinhos também fazem é melhorar o nosso humor. Afinal, é o intestino que responde pela produção de 95% da serotonina de todo o corpo.


37. Investir no ômega-3
Peixes de água fria (salmão, arenque, sardinha, atum), sementes de linhaça moídas e óleos de peixe, de soja e de canola são ótimas fontes desse nutriente, que tem ação comprovada na redução dos níveis de colesterol e de triglicérides, além de ajudar no controle da pressão e de prevenir o risco de tromboses, que danificam os vasos sanguíneos. O composto ainda é coadjuvante em tratamentos neurológicos e de osteoporose.


38. Controlar o álcool
A curto e médio prazos, o álcool pode engordar, acelerar o processo de envelhecimento e ainda aumentar a pressão arterial. A longo prazo, causa dependência e ainda compromete o funcionamento de todos os sistemas do corpo, com danos mais sérios para o fígado.


39. Brincar com as crianças
É uma excelente estratégia para tirar o foco das preocupações, aproximar a família ou amigos e facilitar o contato intergeracional. E todos esses aspectos estão associados à longevidade. Porém, para funcionar, é preciso que se tenha um mínimo de afinidade com os pequenos.


40. Construir o próprio jardim
Mexer com plantas e flores pode ser um hobby interessante e saudável, desde que você realmente consiga tirar prazer da atividade. "Esse tipo de passatempo é muito válido para prevenir o estresse, tanto quanto fazer trabalhos manuais ou cozinhar. Só não pode virar rotina e obrigação. Se a pessoa tem que cozinhar ou cortar a grama todos os dias, por exemplo, isso passará a representar, na vida dela, mais uma fonte de tensão. E aí os benefícios não virão", explica Armando Ribeiro Neto.


41. Desfrutar do sol
Sentir na pele o calor dos raios solares não é somente uma receita para adquirir disposição e ânimo. Com cerca de 15 minutos de exposição, oferecemos ao corpo algo que só o sol pode dar: a energia necessária para a síntese de vitamina D. "O composto é importantíssimo na fixação de cálcio no organismo, prevenindo a osteoporose, além de fortalecer o sistema imunológico", afirma a endocrinologista Bárbara Carvalho Silva, da Universidade Federal de Minas Gerais.


42. Perdoar mais
"Para envelhecer bem, é preciso olhar para a nossa trajetória de vida aceitando os erros cometidos e desculpando-se por eles. Da mesma forma, é interessante perdoar aos outros, percebendo que não fomos apenas vítimas", diz a psicóloga Dorli Kamkhagi, colaboradora do Laboratório dos Estudos do Envelhecimento do Hospital das Clínicas (SP). "Perdoar é retirar objetos pesados de uma mochila que carregamos", compara.


43. Dar uma chance à laranja
Uma única unidade é capaz de prover a necessidade que o nosso corpo tem de vitamina C a cada dia. "Protege contra o câncer, afasta aquela gripe chata e até ajuda a pele a se recuperar mais rapidamente dos estragos promovidos pelo sol", diz a nutricionista Gabriela Soares Maia.


44. Alongar o corpo todo
Os problemas mais frequentes do aparelho locomotor, e que estão relacionados ao envelhecimento, são a perda da mobilidade e a osteoporose. "O alongamento, enquanto um treinamento da flexibilidade, é um dos principais fatores de manutenção da autonomia funcional em idosos", garante o educador físico Estélio Dantas.


45. Cochilar após o almoço
Na Península de Nicoya, na Costa Rica, a sesta é um costume institucionalizado. E, em muitas outras partes do mundo, as pausas para um cochilo também são comuns. "Para quem dorme pouco, essa pode ser uma estratégia compensatória", diz o neurofisiologista Flavio Alóe. É como renovar as energias, antes de recomeçar a jornada.


46. Priorizar as pessoas amadas
Este é outro ponto comum dos que vivem nas chamadas Blue Zones. "Eles contam com famílias fortes e se apoiam mutuamente", conta Dan Buettner. Relações verdadeiras nos protegem de situações adversas.


47. Esquecer do sal
A redução de seu consumo é imprescindível para prevenir e controlar a hipertensão que, por sua vez, oferecem as condições favoráveis para que inúmeros problemas de saúde progridam rapidamente, tais como a insuficiência renal e as complicações cardíacas. "O sal em excesso faz o corpo reter mais líquido, o que, além de causar inchaço, também aumenta o volume sanguíneo, elevando a pressão nas artérias", explica a nutricionista Andréia Naves. Para passar bem longe desse drama, vale cortar o sal de cozinha que adicionamos aos pratos durante a preparação, para colocá-lo apenas no momento de consumir, e sempre usando o bom senso. Outra dica é reduzir o consumo de condimentos, pratos prontos, embutidos ou enlatados.


48. Praticar sexo com prazer
A atividade sexual ajuda a aliviar as tensões, já que, durante a relação, ocorre a liberação de endorfinas, substâncias que melhoram o humor. O sexo ainda faz bem para a circulação. Por fim, vale como um excelente exercício e ajuda a reforçar vínculos de afeto.


49. Criar um tempo para a família
A união e o apoio mútuo entre cônjuges, pais e filhos precisam certo investimento de tempo e atenção. Mas como encontrar períodos livres para dedicar a essas pessoas todo o carinho que merecem? "Vale programar um jogo que possam fazer juntos, que permita confraternizar e trocar ideias", diz Christian Barbosa.


50. Usar as dicas diariamente
Caminhar só aos finais de semana ou encontrar mais tempo para os amigos apenas nos períodos em que a rotina de trabalho sossega um pouco podem ser um bom começo, na tentativa de transformar a sua vida para melhor. É preciso, porém, garantir que mudanças pontuais se transformem em hábitos, para colher resultados significativos no que diz respeito à saúde e à longevidade. "As pessoas que eu conheci enquanto preparava o livro possuem diferentes segredos, mas uma coisa que todas elas têm em comum é a disciplina; elas usam seus segredos diariamente, ou seja, fazem da boa saúde uma prioridade, um hábito mesmo", finaliza Gene Stone.


Produção: Janaina Rezende